Capítulo Aleatório III

Mais um capítulo aí.

De Chochis a Santa Cruz

Thiago e eu ficamos em um quarto enquanto o pessoal se dividiu e ocuparam os quartos restantes. Eu tive uma boa noite de sono – dez minutos deitado e eu já estava no nivel Zen. Algumas vezes eu acordara durante a noite, mas não naquela, mesmo com todos os pernilongos voando e tentando nos morder; meu corpo e mente apreciaram muito bem o descanso.

Acordamos antes das seis da manhã, e o dono do El Peregrino nos prometeu um café-da-manhã reforçado, com o velho pão boliviano, queijo e leite e café.

Santa Cruz de la Sierra era o nosso próximo destino, mas! o dono da hospedaria tinha nos contado sobre um santuário construído por Jesuítas chamado Cerro Chochis (“Cerro” sendo o espanhol para “monte”) apenas a alguns quilômetros dali, subindo uma estrada pela montanha. Tiramos uma foto de todos à frente da entrada do El Peregrino e fomos embora.

Chochis foi uma benção, pois tivemos uma parada, senão teríamos que dirigir até Santa Cruz, no meio da noite – por 362 quilômetros. Muito perigoso.

Oito de Julho era, Santa Cruz localizada depois da mais perigosa e arriscada estrada que tínhamos pego e iriamos pegar, de longe. Um medley de, em primeiro lugar, terra, então mudando para cascalho e pedras e muitos buracos. O primeiro trecho era inteiramente de terra, não muito difícil, mas andamos por ele com as janelas fechadas, pois as motos à nossa frente levantavam terra, produzindo ondas de terra nas nossas janelas laterais. Esse trecho foi fácil, e antes fosse assim o caminho todo. Mas não foi. Logo depois, a estrada virou uma mistura de cascalho, pedras e chão cheio de buracos. Esse trecho foi o pior de todos; me dá calafrio só de pensar. Para piorar, havia construção em muitos trechos, maquinário e pessoas. Tratores no meio da estrada, aos lados, em todos os lugares. E ainda fica melhor! Nenhuma placa sinalizando para nos ajudar, e haviam desvios em alguns lugares que nos levariam sabe-se para onde. Os trabalhadores foram as nossas placas, nos ajudando e dando informações para sair daquele buraco. Foi um milagre, não que conseguimos sair de lá, mas que conseguimos sair de lá inteiros e sem acidentes: sem danos aos veículos, sem pneus murchos, nada. Milagre realmente.

O sol estava a vista naquele longo dia; quando chegamos ao fim daquele caminho desgraçado, era tarde, o tempo nublado. Mesmo sem chuva, o tempo me deu um senso e traços de agourento mas continuamos o caminho.

Quatro, cinco horas de guiar sem descanso, fizemos uma parada em um restaurante estrategicamente posicionado. Falando sobre o que acabamos de passar, e inteiros, eu senti um alívio, todos sentiram. Dias antes, quando perguntávamos às pessoas sobre essa estrada, nos contavam que estava em construção, mas apenas cerca de cem quilômetros, então tudo voltaria ao normal, seja lá o que seria normal por essas bandas.

Quando voltamos a andar sobre asfalto novamente, eu agradeci aos Céus, porque estávamos nos aproximando de Santa Cruz de la Sierra, mesmo com Célio tendo um encontro com um pequeno parafuso e tendo o seu pneu traseiro estourado. Muito sem sorte. Parada forçada bem ali, o nosso primeiro pneu furado, quase uma coisa para se comemorar. Parafuso retirado do pneu, impossível não pensar em como coisa tão pequena pode nos afetar e como conseguimos passar por quase duzentos quilômetros de péssimas condições sem nos acontecer nada e acontecer justo quando estávamos em condições normais de estrada. Vai saber.

Trocar pneu de motocicleta não é fácil e ainda bem que estávamos em group. Retirar o pneu foi um evento por si próprio: Célio e Doca subiram em cima do pneu e Lucas tentaria retirá-lo com qualquer ferramenta disponível – uma chave de fenda se provou útil, mas apenas depois de algumas tentativas eles conseguiram remover o pneu.

Tudo isso foi feito em o que parecia um posto de gasolina abandonado. Na verdade, não o era, apenas não havia pessoas trabalhando naquela hora. Alguns carros, até mesmo um trailer pararam por lá, sem sucesso, sem gasolina, sem combustível – me faz pensar qual foi o destino dessas pessoas, sendo que elas estavam indo para a direção daonde nós estávamos vindo: a estrada de terra. E era tarde, um pouco antes do anoitecer, então ir por aquele caminho não era boa idéia. Mas eram bolivianos, então eles deviam conhecer aquela região melhor do que nós, estrangeiros xeretas.

De qualquer jeito, pneu furado foi trocado, nós voltamos para o caminho de Santa Cruz, a rodovia 4, em toda a sua glória de asfalto.

Alguns bons quilômetros longe, não seria até as sete ou oito da noite que chegaríamos lá. Mas eu estava feliz, pois o pior tinha passado e demos tchau e adeus para tudo aquilo com um pouco de Van Halen tocando no som do carro.

Uma amostra do pior

Chochis-Santa Cruz

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