Capítulo Aleatório V

Para Vila Tunari

Eu acordei ainda tão cansado que quase perdi a hora do café-da-manhã, sendo o último a descer para aonde estava sendo servido. Um bom desjejum, bom café, sucos naturais, pão boliviano. A essa altura eu estava me afeiçoando ao pão.

Nove de julho foi um dia maluco. Nós demoramos tempo demais para sair do hotel – não eu – e ainda, era necessário uma visita a uma oficina para checar as motos; principalmente Célio, que precisava verificar pneus e rodas da sua. Isso, junto com mais duas ou três tentativas de sair da cidade (fazendo vários contornos ao redor dela) para pegar a rodovia 4 para La Paz, nós tínhamos perdido umas boas horas; horas que eram preciosas, uma vez que se está na estrada, em uma corrida contra o tempo, basicamente.

Sorte nossa, fizemos uma parada no estacionamento de um grande supermerado e encontramos com um brasileiro que deu direções e explicou que seria melhor pegar um desvio através da rodovia 7, parando em uma cidadezinha chamada Buena Vista e dormir em outra cidadezinha, Vila Tunari; pois chegar até La Paz em um único dia não seria possível, se não estivéssemos dispostos a dirigir pela noite, novamente. Bom, não estávamos dispostos, então pegamos o desvio, pela rodovia 7. Nosso ritmo foi mais rápido do que antes; uma suave guiada em duas horas e chegamos em Buena Vista.

Buena Vista era parecida com Chochis, pequena mas no estilo Velho-Oeste. Era melhor definida como cidade do que Chochis antes. Comemos no único restaurante nas redondezas, uma refeição muito bem-vinda e re-energizante. O bar do restaurante era decorado com bandeiras de países do mundo todo, então eu pedi uma bandeira da Bolívia de presente. Charmoso que só eu, depois de flertar e brincar com a atendente, ela me deu. A bandeira. Presente dado, Vila Tunari era nossa próxima parada.

É uma pena, porque estávamos rodando rápido naquele dia, mas com todos os carros e caminhões no caminho, nos fizeram mais devagar do que queríamos. O percurso foi bom e com o sol se pondo, conveio para boas fotos e memórias.

Com todas as coisas boas, veio as ruins: a noite estava descendo rápido; logo nos encontramos dirigindo pela noite, em uma estrada praticamente não iluminada, curvas perigosas, direção perigosa por parte de outros motoristas, tudo perigoso. Tivemos que parar no “acostamento” pois tinha gente que ficara pra trás, e naquela hora pensei que algum caminhão ia nos acertar ou alguma coisa parecida. A pior coisa de dirigir a noite é perder todas as coisas ao redor, incluindo as paisagens. Mas conseguimos.

Vila Tunari era a cidade mais pequena que passamos, mais pequena que Chohis, até. Parecia mais um assentamento do que cidade propriamente dita, construída ao longo da rodovia 7. Havia dois parques nacionais nas redondezas – Parque Nacional Carrasco e Parque Nacional Sécure; infelizmente, não tínhamos tempo disponível para visitá-los, pois sairíamos logo cedo, esticando o percurso até La Paz, voltando para a rodovia 4, passando pela cidade de Cochabamba e pela Cordilheira dos Andes.

Mesmo comigo, Thiago, Kall e Lucas no mesmo quarto (camas separadas), eu durmi rápido demais para pensar em qualquer coisa.

Saindo da cama cedo, como ditava a norma, fomos para o desjejum, não era um banquete como estava acostumado até então, mas deu pra enganar.

Acredito que dez de julho era o dia que mais andamos, de longe. 160 quilômetros daonde estávamos até Cochabamba, e de lá até La Paz, por volta de 700 quilômetros, totalizando 3.009 quilômetros de Campinas até La Paz. Dez de julho começou um dia nebuloso e nublado, subimos e descemos por montanhas exuberantes e rochosas, rios e riachos através delas e parando em uma solitária casa aonde uma família muito, muito pobre vivia e que ajudamos com um pouco de comida que tinhamos no carro – acredito que Ivan lhes deu um pouco de dinheiro.

Umas das mais incríveis vistas e paisagens estava a chegar, enquanto estávamos nos aproximando de vilas e cidadezinhas localizadas entre pequenos vales entre as montanhas. Me tirou o fôlego, sem brincadeira. Boas fotos foram tiradas da gangue das bikes e das paisagens, e eu preparei o mate com água quente, porque não estava quente e porque as circunstâncias e nossos humores pediam. Até colocamos a trilha sonora do Senhor dos Anéis e músicas Celtas, porque a situação pedia, sabe? Eu sei que você sabe.

Jornadas pela zona rural boliviana de lado, estávamos nos aproximando de Cochabamba, localizada em um vale de mesmo nome próximo aos Andes.

De volta no tempo alguns anos, mais precisamente 1786, o Rei Carlos terceiro da Espanha renomeou a cidade para “leal e valente” Vila de Cochabamba, pois os habitantes ajudaram em suprimir as rebeliões indígenas de 1781 em Oruro.

Eu não vou falar o que os Espanhóis, os Portugueses e até mesmo os Holandeses fizeram à Bolívia, Peru e Brasil,  pois isso levaria um livro inteiro para contar. Muitas coisas erradas, para dizer o mínimo, foram feitas à América do Sul como um todo mas isso é assunto para outro livro. Chega disso.

Nós estávamos felizes, bebendo o nosso mate, o sol aparecendo, meio-dia chegando, Cochabamba se aproximando.

Advertisements

About Pedro Merigui

The Art of Traveliness book can be obtained here: https://www.smashwords.com/books/view/43106
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s